terça-feira, dezembro 13, 2011

O Rio está ficando sério...

Tenho ido ao Rio. Tenho gostado muito do Rio. Mas ontem fiquei com a impressão de que o Rio está se levando a sério demais. Será que a euforia com a diminuição da violência (que é negada parcialmente pela galera que manda os relatos da Zona Norte), a enxurrada de jovens turistas estrangeiros (ao que me lembro isso não era nem um pouco comum na minha juventude), a modernidade chegando (bicicletas comunitárias com cem pontos de coleta ao largo da cidade é chique demais!), entre outros efeitos, estão criando uma horda de pessoas que estão confundindo a nossa necessidade irrefutável e tardia de exercitar cidadania em mais altos níveis por uma pretensa arrogância?

Não esperava muito do show da dupla norueguesa Kings of Convenience no Circo Voador. A banda atualiza o som de Simon & Garfunkel com leves pitadas de bossa nova. Usam bem o contraponto silêncio/barulho (mas bem diferente do Pixies, que faz barulho de verdade) e fazem um som intenso, apesar de minimalista (são somente dois violões ao vivo - mas que se bastam!). O evento veio cercado de uma aura de apreensão. O show anterior em São Paulo tinha causado polêmica pelas exigências um tanto insólitas da banda para um concerto de rock, pop ou qualquer coisa que o valha tocada por pessoas de cerca de 35 anos. "Proibir" o funcionamento do bar durante o show ou qualquer tipo de conversa durante as músicas estavam estre as "demandas" dos rapazes.

Neste aspecto, talvez o Circo não fosse o melhor palco para os caras - mas para este fim simplesmente continua sendo inevitalmente soberano, ainda mais tendo como coadjuvantes os Arcos e a Catedral. Adicionalmente, com o fechamento do Canecão e o crescente movimento do crowdfunding, a inexistência de opções viáveis na Zona Sul levou o Circo ao topo do pódio, infelizmente sem concorrentes. É verdade que a Lapa, também renascida nos últimos anos, reverberava sons diferentes que desviavam por diversas vezes nossa atenção aos dois violões da banda.

Entretanto, o público é que estava irreconhecível. Mais chato que a pretensa chatice da banda. Ao ponto de uma figura na minha frente ter pedido que eu fosse falar no bar quando eu comentava com a galera que um dos violões era de aço e o outro de nylon - nerdices básicas que adoçam os shows - e duas atrás de mim terem pedido pra eu deslocar a cabeça para que elas vissem o tal "gatinho moreno", porque o ruivo quase clone do Andy Dick devia estar gazelando demais pra despertar qualquer reação diferente de estranheza nas meninas.

Eu, que frequento shows há mais de 25 anos com assiduidade, nunca tinha visto uma coisa tão patética. Claro que, do meio do show pra frente, indignado, resolvemos "trollar" a menina e quando finalmente o tal moreno resolveu tocar uma bossa, em três segundos de dedilhado eu já tinha bingado "um cantinho, um violau" (sic), pra tomar mais um shhh na cara e um minuto após tomar outro, depois de dizer "não falei que era Corcovado"? Além do mais, tenho minhas dúvidas se metade daquela galera já tinha ouvido o Getz/Gilberto, de 1964. Cada um com o seu isolamento e a sua veneração individualista, tão adversas do comportamento típico do carioca. Sinceramente, concertos entram na categoria de eventos catárticos, compartilhadores, agregadores; tais como aquele clássico "abraço suado" em um torcedor desconhecido, depois do gol (muitas vezes suado) aos 33 do segundo tempo.

O fato é que toda esta preocupação acabou gerando uma grande cumplicidade entre o público e a dupla, que parecia extasiada com a platéia. Os refrões eram cantados em uníssono, bem como os corinhos. Os pedidos de silêncio (do imperativo "to hush", com tradução difícil no português e que no inglês lembra convenientemente sua onomatopéia), as coreografias de palmas trocando as semínimas pela semibreve (intencionalmente aumentando as pausas entre os tempos para reforçar o silêncio) e os estalos de dedos ao invés das palmas ("snaps instead of claps" - no inglês parecem irmãos) foram de fato fundamentais ajudando a criar o clima intimista que a banda queria (e que o próprio público parecia querer muito também!).

A banda da cidade portuária de Bergen ganhou mais um fã. Assim como o Rio, que resgatou aquele que quase tinha perdido há alguns anos...

terça-feira, março 08, 2011

Top 5 de Carnaval

1. Caetano Veloso - Chão da Praça
2. Fito Paez - Tres Agujas
3. Kings of Leon - Sex On Fire
4. MGMT - Kids
5. Depeche Mode - Freelove

sábado, fevereiro 05, 2011

Top 5 da Última Semana

Nada muito novo... just the goldies oldies...

1. The Beatles - While My Guitar Gently Weeps
2. Faith No More - Just A Man
3. The Cure - The Hungry Ghost
4. Faith No More - Paths Of Glory
5. The Cure - Sleep When I'm Dead

domingo, setembro 12, 2010

Para um Amigo que foi pra Londres...

Quando o Guga me disse que ia pra Londres, na mesma hora pensei que ele devia fazer um intensivão de rock inglês... não que fosse fazer muita diferença, a cidade já não é mais como era na época dos punks e muito menos como devia ser em meados dos 80. Aliás, quando estive lá pela primeira vez em 98, já pude sentir que a música não parecia mais ser o nitrogênio que se respirava por lá, talvez o hélio e olhe lá...

Ainda assim, gravei um CD pra ele e não pude explicar as razões das inclusões das bandas e músicas, portanto, vamos lá:

1. The Clash, "London's Burning" (1977) Claro, começando pelo "começo". Clash na sua melhor forma punk e dizendo que a cidade está entediante - só pra nos forçar a provar o contrário, inclusive, tarefa esta bem pouco difícil!

2. Sex Pistols, "God Save The Queen" (1977) Mais punk na veia. Corruptela do Hino Nacional do Reino Unido, esse é o real hino dos punks. A frase "no future for you" sintetiza todo o desespero do final dos anos 70. "Anarchy In UK" é outro hit do único álbum deles, que também se tornou um clássico, ou seja, ao desembarcar, compre logo uma cópia do "Never Mind The Bollocks"...

3. Editors, "Papillon" (2009) Pra não deixar a peteca cair, avançamos 32 anos e passamos a algo mais contemporâneo. Essa banda faz a melhor releitura das bandas da cena dark inglesa dos anos 80. Simplesmente fantástica!

4. The Cure, "Sleep When I'm Dead" (2008) Top 2 da minha lista de bandas, carreira irretocável desde 78, que no último álbum voltou a respirar com força. Essa é uma das melhores deste ótimo álbum.

5. Arctic Monkeys, "Teddy Picker" (2006) Os queridinhos da crítica inglesa fazem um som bastante esperto com letras muito interessantes. Vale a pena investigar melhor!

6. Swing Out Sister, "Something Every Day" (2008) Uma banda que flerta bastante com a bossa nova e que coincidentemente tem se sustentado somente com o publico japonês, ávido consumidor deste estilo musical. Música pra ouvir no domingo a tarde no Regent's Park!

7. The xx, "Crystalized" (2009) Recentemente ganhou o prêmio de banda revelação do ano pelo The Guardian. Dark levemente dançante, minimalista e sexy. Deu pra entender? :-)

8. The Rapture, "Get Myself Into It" (2006) Essa é pra quem diz que não dá pra dançar rock. Sempre dá. É só querer, e ter um pouco de boa vontade!

9. Franz Ferdinand, "Take Me Out" (2004) Iniciou o maravilhoso movimento de levante do rock revival dos anos 80, e de quebra, causa furor na platéia como os Beatles!

10. The Ordinary Boys, "Over The Counter Culture" (2004) Nada se cria, tudo se copia. Das bandas que emularam o Madness (banda inglesa de Ska/pop de Camden Town no final da década de 70) esta foi a melhor. Sem falar que o nome da banda foi inspirado numa música do Morrissey...

11. Gorillaz, "Demon Days" (2005) Talvez a música mais xarope do CD, mas presente por um motivo especial. Projeto paralelo dos caras do Blur tão profíquo quanto a banda original, faz um flerte com o eletrônico pouco convencional - nesta música convidaram um coral de crianças para participar das gravações.

12. Happy Mondays, "Hallelujah" (1988) Esta banda faz um rock dançante meio psicodélico e foi precursora do movimento das raves no final da década de 80 em Manchester. Quase um mantra, é interessante perceber que a palavra é usada no Judaísmo como parte das orações de Hallel e que também aparece 24 vezes no Velho Testamento da Bíblia cristã, que corresponde grosso modo aos conjuntos de livros Tanach (Torah, Neviim e Kethuvim) do Judaísmo (obrigado, mais uma vez, Wikipedia!) הַלְלוּיָהּ

13. Morrissey, "Suedehead" (1988) Ele diz tudo o que precisamos saber sobre a vida, principalmente a angustiada. Tornou-se celibatário, e se ele fez esta opção, algo está errado na raça humana, e não com ele. Também é vegetariano e costuma se envolver em polêmicas, mas é por uma boa causa. Existem momentos na vida em que melhor amigo que ele não há. Long live Morrissey!

14. Siouxsie And The Banshees, "Cities In Dust" (1985) Ela começou punk, mas depois flertou com o gótico e construiu uma carreira invejável. Até o Robert Smith do The Cure tocou com ela! Esse arrasa quarteirão embalou muitas noites na Robin Hood Pub, no Alto da Boa Vista e certamente em outras milhares de localidades mundo afora! Viu como dá pra dançar?

15. Depeche Mode, "World In My Eyes" (1990) Top 5, fácil. Começaram electropop e depois colocaram um pouco de lápis preto e estruturas de aço nas composições, as tornando mais densas. Dave Gahan é um exímio showman - sem falar no talento incontestável do compositor principal Martin Gore - e é um concerto que não deve ser perdido em hipótese nenhuma se passar pela sua cidade, entendeu?

16. Everything But The Girl, "Oxford Street" (1988) Apesar de também namoricar com a nossa bossa nova, mais eletrônico que o Swing Out Sister e um pouco mais melancólico também. Por isso mesmo, talvez ainda melhor. Cá entre nós, a frase "When I was seventeen, London meant Oxford Street... I grew up in a little world" soa bem familiar pra nós, tupiniquins. Essa linda rua é a meca das compras mainstream em Londres e onde havia as melhores lojas de CD (quando isso ainda existia, risos). Sem falar que a estação de metrô é uma graça (como quase todas) e tem várias interseções com diversas linhas. Ou seja, você sempre passa pela Oxford Circus. E com essa beleza toda, não há como não olhar sempre de novo...

17. The Smiths, "This Charming Man" (1983) A única repetição merecida da lista, pois afinal, o Morrissey é 80% do The Smiths, conforme já comentado aqui no blog. Essa é pra ouvir no sábado à tarde!

18. Bauhaus, "Kick In The Eye" (1981) Aqui o pós-punk encontra o funk. Os baluartes do rock gótico começam a ficar mais animadinhos e fazem esta obra-prima! A banda acabou em 84, mas tive a honra de ver um dos revivals deles na histórica Brixton Academy em 1998. Simplesmente inesquecível.

19. Cocteau Twins, "Carolyn's Fingers" (1988) Se existe céu, é esta voz que você encontrará lá tocando nos alto-falantes. No começo, nos idos de 1982, Liz Frazer cantarolava coisas intelegíveis e isso não tirava sobremaneira o brilho das músicas. Nesta fase ela já estava começando a se querer fazer entender - mas ainda assim não era muito fácil!

20. Pet Shop Boys, "Suburbia" (1986) Ah, os subúrbios de Londres, que os turistas quase nunca conhecem, pois quando visitamos a cidade costumamos ficar na zona 1, mas a imensa cidade tem 6 zonas só no metrô, fora os trens urbanos. Esta música alterna os prós e contras dos subúrbios, numa melodia muito densa que flerta com o pop. Não é a toa que são cultuados por algumas das figuras mais ilustres do rock.

21. The Mission, "Butterfly On A Wheel" (1990) Outro espécime do pós-punk, dissidente do Sisters Of Mercy, e com uma densidade nas canções criada a partir de muitos violões e dedilhados bem espertos. E "And in the dark for me, you're the candle flame that flickers to life" é uma bela frase, indeed. Essa faixa fecha o CD propositalmente e, por experiência própria, pode fazer chorar, cuidado!

Enfim, amigos, aproveitem ao máximo a estada e, quem sabe, qualquer dia desses a gente se encontra por aí, porque Londres "is never enough", como diria Robert Smith!

segunda-feira, agosto 30, 2010

Dançar ou Não Dançar?

Hoje fiquei triste sabendo da morte (suicídio?) de Charles Haddon, vocalista da banda londrina de eletropop Ou Est Le Swimming Pool, no último 20 de agosto. Os caras são de Camden (tem lugar melhor que aquele no mundo?) e estavam apenas começando a ajudar a criar vida inteligente na combalida dance music dos últimos tempos. Charles subiu numa antena de telecomunicações e caiu (se jogou?) de uma altura de 18 metros logo após terem tocado no descoladíssimo Pukkelpop Festival, na Bélgica. Ultimamente estavam abrindo pro La Roux, outra banda londrina bastante interessante com estilo bem semelhante, influenciada pelo synthpop londrino dos anos 80.

Nunca fui rato de danceteria (sim, na minha época, isso era sinônimo de balada), até porque dançar nunca fez muito a minha praia, mas obviamente as casas noturnas (caramba, quanto mais falo, mais entrego a idade) que tinham uma pegada mais Rock, muitas vezes com música ao vivo, a gente acabava freqüentando. Hoje, mais de 10 anos sem saber as nuances da "night" (sim, este termo foi cunhado pouco antes da minha saída da mesma pela esquerda, como diria o saudoso leão da montanha), me parece que as coisas ficaram mais polarizadas e "show é show" e "balada é balada". Pode ser efeito da situação geográfica - é provável que em Sampa (e no Rio, quem sabe) ainda haja baladas de todo tipo, inclusive aquelas que tocam Rock, e onde, quem diria, as pessoas dançam!

Depois do final dos anos 70, o dance mais "clássico" já teve seus flertes: com o pós-punk no início dos anos 80 (ou sou só eu o maluco que consegue dançar com "Kick In The Eye" ou "Wax And Wane"?); diluindo o eletrônico do Kraftwerk no final dos anos 80 via Technotronic e Pop Will Eat Itself, só pra citar alguns; misturado com R'n'B e Hip Hop, da década de 90 até hoje; na festa dos DJ's autorais, até meados da década de 00; e mais recentemente, em crossovers bem interessantes - principalmente aqueles que emulam os 80 (já resenhei essa tendência aqui no blog em 2005), tipo The Rapture (o "Pieces of the People We Love" é todinho bom pra dançar!), o The Ting Tings ("That's Not My Name" e "Shut Up and Let Me Go" são bem legais) e a figuraça Lady Sovereign (que pegou a "Close To Me" do Cure e fez um rap inglês nervoso em "So Human")!

Ainda assim fico com a impressão de que o "dance" sempre fica dissociado das músicas mais "sérias", ou menos ortodoxas nas baladas mainstream, pelo menos enquanto vermos lixos do tipo "Alejandro" e "Pa Panamericano" bombando na "night". Enfim, se é pra ter letras robotizantes à prova de neurônios, prefiro a "Cicciolina" do Pop Will Eat Itself, que quem diria, virou hino "lado B" da Copa da Itália de 1990!

sábado, julho 24, 2010

Last Month I Heard...

Tantra, "Fábrica".
Já tinha baixado o Tributo a Renato Russo há pelo menos um ano, mas nunca tinha conseguido assistir. Na média, bem fraco e muito aquém do que o grande Renato mereceria, mas algumas poucas músicas salvam o tributo do fiasco total. "Metrópole", com o Forfun, surpreende misturando new-punk com ecos de nu-metal, e melhorando o mix de estilos que Charlie Brown Jr. tentou fazer, mas nunca conseguiu, com muita maestria. A Vanessa da Mata emociona (eita, quem diria, eu dizendo uma coisa dessas) com "Por Enquanto", mas a cereja do bolo é a supracitada, presente no segundo álbum da Legião, " Dois", uma obra-prima e certamente presença ilustre em quelquer lista dos Top 10 álbuns nacionais. Muito legal também foi ver Lourenço Monteiro, o baterista do Tantra, arrebentando nas baquetas. A presença do ex-baterista do Wonderland (que assim como outros ex-integrantes, às vezes parecem ter vergonha do passado "from hell"... risos), me fez lembrar, com muita saudade, da época em que moleques compunham na calada da noite, regada a pipoca e Coca-Cola, momento este que valeria qualquer fortuna para pagar a tarifa do bonde do passado e voltar pra passar mais uns momentos por lá.

Sting, "Another Day".
O gajo acabou de lançar um novo caça-níquel, "Symphonicities", com versões do seu cancioneiro, acompanhado por uma orquestra. Ouví-lo só me deu ainda mais saudade dos tempos de "Bring On The Night", álbum originado da turnê da sua melhor safra, já resenhado aqui no blog.

Kreator, "Terrorzone".
Baluartes do Thrash Metal, deram um show na quadra da Escola de Samba da Estácio de Sá em 1992, na turnê do "Coma Of Souls", álbum perfeito do começo ao fim, que só não botava o Slayer no chinelo porque, por volta daquele ano, eles também lançaram sua obra-prima, "Seasons In The Abyss". Apesar do local bizarro, o show foi fantástico e é uma grata surpresa saber que Der Brüder ainda estão na ativa.

Dio, "Holy Diver".
Sem comentários. O melhor cantor do Metal não podia ter ido dessa pra melhor logo agora... o cara ainda tinha muito chifrinho pra fazer, saltinho pra usar e líções pra ensinar. Enfim, perda irreparável. Não me lembro bem, mas acho que o primeiro disco de metal que comprei foi o dele, um EP de "Hungry For Heaven". Não pode ser mera coincidência.

Caetano Veloso, "Como Dois E Dois".
"Tudo certo como dois e dois são cinco"... O que dizer de uma frase genial como essa? Ultimamente ando feliz com o mestre, porque o estupefato "Cê", de 2006, foi a resposta exata à entressafra de praticamente dez anos desde o ótimo "Livro", de 1996 - estou descontando o "Noites Do Norte", de 1999, que tinha lá suas cacetadas ("Tempestades Solares" e "Cobra Coral" salvaram o disco do fiasco), mas que é abaixo da média do gênio. Pois bem, eu já havia prenunciado (e até rezado, sem saber rezar!) que ele voltaria com força total, numa resenha de 2005 aqui no blog. Essa música é da década de 70, mas entrou na turnê do Cê e não ficou nem um pouco deslocada, assim como as ótimas "You Don't Know Me" e "Nine Out Of Ten", do álbum "Transa", de 1971. Mas, afinal, qual música do Caetano ficaria deslocada no tempo e espaço, se todas são eternas...?

sábado, março 13, 2010

Ouvindo Na Última Semana...

Cocteau Twins, "Squeeze-Wax".
Conseguiram neste álbum, "Four Calendar Café", chegar bem perto da perfeição. Essa é só mais uma das dezenas maravilhosas. Sinto saudade do que infelizmente não vi. Reverência com melancolia. Banzo?

Bauhaus, "Endless Summer Of The Damned".
Que retorno... simplesmente espetacular. Diferente de Echo e Mission que cumpriram tabela, eles realmente fizeram um lindo canto do cisne com "Go Away White".

Wonderland, "Non Compos Mentis".
Voltei a ouvir essa demo depois de uns 15 anos e a música título realmente era demais. Pena que a gravação não tenha ficado tão boa, especialmente por causa do vocalista que vos fala. Se assim já fez barulho, quem sabe com uma boa gravação a estória não teria sido diferente...?

Marillion, "Cover My Eyes".
Crucifiquem-me, mas Marillion com Steve Hogarth nem se compara com a era Fish. Essa na versão acústica arrebenta, apesar do melhor deles ter sido na estréia do Steve, "Seasons End".

a-ha, "Manhattan Skyline".
Essa música fica bem tanto acústica, quanto "versão fudêncio". Já resenhado no blog, esse álbum, "Scoundrel Days", é realmente ótimo. Pena que não vou conseguir me despedir deles na Farewell Tour...

sábado, março 06, 2010

Escolhas ou Pirataria Nos Anos 80

No auge da vontade de ser roqueiro, decidi que tinha que comprar um LP "pirata", ou seja, um "bootleg" como diriam os gringos. Não me lembro exatamente aonde, mas acho que foi numa loja no Edifício Central, na Carioca, que fiquei em dúvida entre dois álbuns diferentes: U2 e Venom.

Que diferença! A popice do U2 tinha me pegado - mas não de jeito - com o War (83), já resenhado aqui no blog. O problema era a "vontade" de virar metaleiro. Também, depois de ter comprado o ingresso pro dia do Metal no Rock In Rio I (19/01/1985), e não ter ido porque chovia cântaros, o mínimo que eu podia fazer era recuperar o tempo perdido radicalizando um pouquinho. O nome da banda era maneiro, a capa tinha os "figuras" escabrosos da banda e ainda era cheio de caveiras e ossos, pra completar. Foi páreo fácil, apesar do medo de não gostar do piratão.

Mas quem disse que eu não ia gostar? Com 13 anos a gente "se puxa" (ou seja, se esforça, como diriam os gaúchos), pra não ser igual, e comigo não foi diferente (ê trocadilho infame!). Acabei comprando outro disco do Venom, "At War With Satan", num sebo, por tipo "50 centavos", e tentei forte, mas sinceramente nunca gostei de verdade dos caras...

Vale ressaltar que a qualidade da impressão da capa e da prensagem do vinil eram péssimas (sem falar na capa totalmente tosca, que trazia uma cópia frontal da capa da versão em vídeo, meio que no tamanho original, circundada por branco pra ficar mais barato), bem como a falta de cuidado com o som da gravação (que deve ter sido copiada do original em VHS sabe lá como!) e o selo interno que também era simplesmente branco e toda vez era uma emoção descobrir qual era o lado certo, até que eu percebesse que no espaço entre o final dos sulcos e o selo branco havia umas coisas escritas e lá devia ter um número 1 ou 2 pra ajudar - e olhe lá!

Afinal, não que o do U2 também não fosse esse fiasco "técnico", pois se naquela época até as prensagens oficiais eram meia-boca e as impressões também deixavam a desejar, quanto mais um piratão. Enfim, no final das contas, pensando bem, o do U2 era (é?) muito mais disco, com as ótimas "The Electric Co." e "I Will Follow", apesar de também já não fazerem minha cabeça há bastante tempo.

Outra informação relevante é que "os pirata" era caro pra caramba! Tipo três vezes o valor de um LP, ou seja, chutando nos valores de hoje, tipo uns 100 reais... Eu só consegui comprar esse do Venom porque tirei segundo lugar num bolão da Copa de 1986 com mais de 100 pessoas e o prêmio varava 1000 reais. Queria comprar uma guitarra, mas meu padrasto não deixou. Aí acabei gastando em um monte de besteiras, tipo esse pirata do Venom! Entre outras coisas, comprei um monte de álbuns, como o Rádio Pirata Ao Vivo do RPM e um Rádio-Gravador Panasonic.

Pois é, comparar a pirataria daquela época com a de hoje é covardia. Até porque o must da "pirataria" era gravar as fitinhas K7 com os discos emprestados dos amigos, ou dos amigos dos amigos, ou até mesmo dos amigos dos amigos dos amigos... mas isso é assunto para um outro post.

P.S.: Resolvi ouvir de novo esse disco do Venom (20 anos depois! e dá-lhe os mp3 da vida), e até que eles não são tão ruins... o At War é fraco mesmo, mas nesse ao vivo eles estão melhores que Mötorhead.

sábado, fevereiro 27, 2010

A Quantos Shows Você Já Foi?

132... and counting! Foi difícil puxar pela memória e nem sei se lembrei de todos...

Coloquei na lista só os mais representativos, sem demérito nenhum às dezenas de shows de ótimas bandas underground como Gangrena Gasosa, Second Come, Dust From Misery, entre várias outras!

Pra ver cada um deles no detalhe, é só clicar na figura à esquerda.

sábado, dezembro 12, 2009

As Cinco Músicas Mais Ouvidas Nas Últimas Semanas

"Just A Man", Faith No More
"Bricks And Mortar", Editors
"Some Heads Are Gonna Roll", Judas Priest
"A Pain That I'm Used To", Depeche Mode
"11 y 6", Fito Paez

As explicações virão em seguida... ou não!

sábado, agosto 22, 2009

Como lidar com a morte?

(Texto originalmente publicado em 2000 no meu sítio atualmente desativado, pode conter links "quebrados")

Desta vez só vou insensatamente jogar pedras n'água e fazer com que os respingos suscitem a auto-análise, pois longe de mim tentar concluir algo sobre a morte. Afinal, como diria o cineasta polonês Andrzej Wazda, "The most important thing is to make people think" (A coisa mais importante é fazer as pessoas pensarem).

A morte de outrem não é mais que uma extrapolação do sentimento de perda. Todos nós convivemos periodicamente com este sentimento. Verdade que muitas vezes a perda é transitória, mas algumas vezes não. E por que então a morte assusta tanto? Jogadores "natos" têm como uma habilidade a capacidade de aceitar este sentimento com muita freqüência, talvez devido à super-exposição. Procurei por algo que sustentasse esta minha teoria psicológica, mas infelizmente nada encontrei. Então por que, para nós, reles mortais, é tão difícil aceitar a perda?

Morrer também é outra tarefa difícil de aceitar. Mas e o que dizer das pessoas que querem morrer? Tentei também, em vão, procurar métodos indolores para provocar a "auto-morte". Porém, depois de uma hora procurando, deparei-me com a constatação de que se houvesse um sítio com dicas sobre "como suicidar-se sem sentir dor", além do número de acessos elevadíssimo, a taxa de suicídio certamente aumentaria horrores. Me lembro que uma vez alguém lançou um livro com um título parecido, mas se a censura existe na Internet, ela provavelmente veta páginas deste tipo...

Sempre tendemos a achar que somos "novos demais para morrer" e vejo que isto está na maioria das vezes associado à quantidade de projetos (sonhos?) que temos a realizar. A chave da questão é que a felicidade está em crer que os projetos nunca acabam, mas a vida sim. Portanto, devemos estar sempre preparados para a morte - desde que ela não seja dolorosa, claro. E se ela será daqui a 3 ou 50 anos, não acredito que seja o mais importante.

Pelo sim, pelo não, fiz o teste da morte em The Spark.com. De acordo com os resultados gerados através das respostas de 100 perguntas, a data prevista para a minha morte seria em 22 de julho de 2058, com 85 anos de idade. Enfim, o cálculo da "sobrevida" está nitidamente associado à capaciade (coragem?) de ser "porra louca" e os próprios criadores do sítio alegam que se fôssemos como eles, provavelmente já estaríamos mortos!

Há quem goste de chegar perto e voltar. A experiência de ter tido uma EQM (Experiência de Quase-Morte), ou o que os americanos chamam de NDE (Near Death Experience), pode ser deveras excitante, inclusive como mostra o filme "Linha Mortal". Bastante gente leva a sério o assunto e a "ciência" têm lá suas metodologias para induzir e potencializar os efeitos da EQM.

A filosofia de "morrer antes que os sinais da velhice apareçam" tem milhares de seguidores pelo mundo afora. Um curador de renome, Martin Maloney, resolveu criar em 1998 uma "coletânea" de esculturas de novos artistas em um projeto intitulado "Die young, stay pretty". Esta frase tem sido citada várias vezes em locais insólitos ao longo dos anos. Por exemplo, a banda Blondie, dos hits "Heart of glass" e "The tide is high", que depois de 15 após o seu término resolveu voltar à ativa recentemente, já citava esta frase em 1979, em uma música de mesmo nome.

Glenn 'Artboy' Zucman, um designer alemão, também cita a frase no seu sítio - com fractais muito interessantes, diga-se de passagem - quando faz observações sobre "almas e fatos", como ele mesmo diz, em uma crônica muito interessante sobre Sheck Exley, um matemático e estatístico que praticou durante 22 anos 'scuba diving' e escreveu dezenas de livros de renome sobre o assunto, onde comumente citava a célebre frase "somente uma pequena percentagem dos acidentes envolvendo mergulhadores experientes acontece ao mergulhar em cavernas muito fundas".

Portanto, Como Queríamos Demonstrar - o matemático Exley diria - as estatísticas não se sustentam quando a vida é posta em cheque. Mas se morremos fazendo o que mais gostamos, isso é a garantia de uma morte feliz? Como a vida "tem dessas coisas" (e a morte também, porque não?), nem seria preciso dizer que Exley morreu exatamente desta maneira em 1994, aos 45 anos, depois de ter realizado mais de 4.000 mergulhos, em uma caverna de 330 metros de profundidade no México.

Falando em México, o dia dos mortos provavelmente é a festividade mais popular por lá e teve a sua origem com os indígenas da região. Esta reunião tem como princípio a felicidade, ao contrário da tristeza habitualmente associada à morte. As crenças dos mexicanos dizem que oferendas fariam "a viagem até a morte" mais fácil. Entre as oferendas, o "pão do morto" é a mais interessante, em forma de um ser humano com um desenho de ossos cruzados. Outra bem popular é o "crânio de Marzipan". Entre as tumbas, pessoas tocam músicas, correm pelas ruas fantasiadas e festejam. As velas e os incensos, a comida e as bebidas, a música e as fantasias são apenas atrações para uma celebração da vida, e lembrar e honrar os mortos, para que habitem novamente por alguns momentos o mundo dos vivos. Uma exposição permanente muito interessante com algumas obras sobre este assunto pode ser encontrada no Memorial da América Latina, em São Paulo.

Dentro desse princípio, muito antes de conhecer a filosofia do dia dos mortos, eu sempre imaginei que a minha morte mereceria uma festa. Não do tipo "Ainda bem que aquele mala foi dessa pra melhor", mas para que pelo menos fosse fosse feito o exercício de celebrar a oportunidade de ter conhecido alguém especial. Pretensão? Claro... mas no fundo isso é o que talvez devêssemos fazer a todo momento. Afinal, a louvação não deveria ser só para religiosos e nem só a deuses.

E já que um ateu falou de deuses, finalizando eu gostaria de citar especialmente Nietzsche - o mais ateu dos ateus - concordando em gênero, número e grau com ele, quando "assim falou", entre outras frases inspiradíssimas: "A intensidade de minha emoção me fez tremer e rir. Minha melancolia quer descansar nos abismos da perfeição: para isto necessito de música. Não há melhor mel que aquele do conhecimento. No seu último sopro, ele criará a alegria de conhecer as nuvens que pesam sobre sua tristeza, será para você os seios, onde você poderá tirar o leite de seu reconforto e fará com que você se volte para a luz!". Outro fã de Nietzsche era Richard Strauss, que deu o nome da obra mais representativa de Nietzsche a uma de suas melhores peças musicais, "Assim falou Zarathustra", que não por acaso pontua uma das cenas mais belas do cinema em "2001 - Uma Odisséia no Espaço", de Stanley Kubrick, quando o monolito jogado ao léu faz um estupendo contraponto entre o homo sapiens e o homo "espacius".

Mas o magnífico Kubrick já é papo pra uma outra conversa... Até a próxima!

sábado, julho 29, 2006

Editors: A Melhor Estréia desde Franz Ferdinand!

É muito difícil citar somente uma música do fantástico álbum "The Back Room". Qualquer dia desses escrevo uma resenha sobre ele, já que estou ouvindo esse álbum de estréia do Editors há uns dois meses e a cada semana gosto mais de uma música diferente. Desde ontem estou ouvindo compulsivamente essa aí de baixo.

terça-feira, julho 18, 2006

As Cinco Músicas Mais Ouvidas Na Última Semana

Guillemots, "Trains To Brazil"
Muito interessante essa novíssima banda londrina, que conta com um brasileiro. O som remete a Clash, Beatles e outras coisas bem legais que não me lembro agora. E a letra é bem acima da média.

Morrissey, "The Youngest Was The Most Loved"
Esse cara é hors-concours. Mas colocando um coral de criancinhas pra cantar as suas angústias ele se superou.

Joe Satriani, "The Crush Of Love"
Não ouvia essa música há uns 15 anos, pelo menos. Ao ver o DVD "Live In San Francisco", refresquei minha memória de que virtuosismo não é sinônimo de falta de lirismo. E isso ele prova desde o primeiro disco, de 1986.

Editors, "Bullets"
Uma das melhores primeiras frases de canções já vistas, que eu gostaria muito de acreditar ser verdadeira... Uma das melhores estréias da década... Depois do Franz Ferdinand, minha última paixão da safra das emuladoras dos anos 80.

Arctic Monkeys, "Riot Van"
Aqui, o contrário. Uma das bandas novas mais incensadas pela crítica que não achei grande coisa. Mas essa música é muito linda. Sem falar no carregadíssimo sotaque inglês, que dá uma saudade...

quinta-feira, abril 20, 2006

Carmem Miranda Reloaded contra o Samba-Caos do Vzyadoq Moe

Não há como negar que Marisa é altamente empreendedora. A elaboração de um dos seus mais novos álbuns somente vem ratificar este fato, ao passo que parece ter saído de uma das linhas de produção da sua "empresa", obviamente atendendo aos seus altíssimos padrões de qualidade. Entretanto, a revelação dos meandres desta criação foi evitada a todo custo pela assessoria de imprensa da Marisa Monte Produções (MMP), inclusive com ameaças de várias sortes ao autor deste relato. Porém, a necessidade da divulgação do relato sobre o processo, inclusive com detalhes sobre a estrutura organizacional da "holding" de Marisa, que surpreendentemente traz algumas das mais conhecidas ferramentas de gestão empresarial, parecia urgente, visto que a equivocada e repetida categorização dos seus produtos como contenedores de uma pretensa aura de originalidade e não menos importante, modernidade, não deve persistir mais nem um instante.

Tudo começou com um "briefing" que foi entregue à área de Marketing da MMP pela presidente da "holding", a própria Marisa Monte, sobre um dos novos projetos que deveriam acontecer ao longo de 2005. Transcrevendo palavras da própria Marisa, cito uma frase que revela-se seminal no entendimento da questão: "O produto deve agradar a gregos, troianos, sérvios e montenegros - aliás, principalmente os Monte e os negros - visando consolidar a minha posição de diva da música brasileira e pavimentar o meu trajeto ao mercado externo de modo triunfal".

A área de Marketing teve bastante trabalho para desenvolver o produto a partir do "briefing" da presidente. Foram muitas noites em claro envolvendo análises de dados de vendas de CDs/DVDs, pesquisas exaustivas com consumidores, reuniões com agências de propaganda e publicidade para finalmente chegar ao produto que catapultaria Marisa ao estrelato mundial.

A descrição do produto que foi entregue à área de Pesquisa e Desenvolvimento da MMP foi a seguinte: "Um disco contido somente com sambas de raiz, porém com caules emblemáticos e icônicos visando dar sustentação, além de folhas de aromas solenes e nobres, entretanto acompanhadas de frutos modernos modificados geneticamente trazendo sabores inusitados e refrescantes".

O chefe do laboratório de P&D, Sr. Dexter, coordenou a alquimia que levaria ao produto final. Muito aplicado, conhecia Marisa há muito tempo e sabia de antemão que o produto deveria trazer ingredientes riquíssimos, porém nunca deixando de ter várias notas de dejá-vu - e essa é a maior das tônicas dos produtos da MMP - visando cativar o consumidor a partir de um estágio posterior na identificação das referências do produto, onde a etapa da estranheza - natural em todas as novidades genuínas - é postergada em prol da acelerada massificação dos produtos.

Nasce então, "Universo Ao Meu Redor". Revelada a receita, é fácil entender como foi fabricado o produto e verificar que trata-se de um embuste, ainda que pretensamente camuflado com elementos pretensamente inovadores e criativos. A primeira matéria-prima a entrar no processo foi o ícone da brasilidade reconhecidamente vencedor no mercado externo, Carmem Miranda. Retiram-se os balangandãs, a voz de taquara rachada, a babação de ovo desmedida dos "states", a coreografia de pornochanchada. O Bando da Lua, a banda de apoio de também dança. Será substituído pelo primeiro ingrediente pretensamente moderno e quase homônimo, o DJ Marcelinho Da Lua. "Os ravers vão adorar quando colocarmos uma batida de funk no samba", dizia Dexter, continuando a relatar o processo, eufórico: "Precisávamos de mais novidades, aí pensei: que tal colocarmos pitadas de instrumentos inusitados ao samba como tubas, cellos e theremins? Vai ficar muito chique e o Zeca nunca teria pensado nisso!".

Uma pitada de descuido da segurança da MMP fez com que a irmã mais nova do Sr. Dexter, Didi, fosse ao laboratório - como era de costume - e começasse a mexer de maneira errática nos equipamentos até que fosse interpelada por um dos funcionários do laboratório. Coincidência ou não, após este fato, a matriz do novo álbum de Marisa foi totalmente alterada, como se tivesse sido infectada por algum vírus que alterasse completamente todas as camadas sonoras, criando um produto novo e inusitado.

Por coincidência, ao visitar a MMP para escrever uma resenha sobre o making-of do disco, pude ouvir algumas das faixas "alteradas" e fiquei extasiado. O que foi gerado por obra do acaso (verdadeiro e não manipulado) parecia diferente, inquietante, contundente, angustiado, melancólico, fatalítico, confrontador, porém nada disso poderia ser esperado de Marisa. Ela entrou em pânico quando viu parte de suas criações mutiladas e mesmo que seu susto não tivesse sido fatal devido ao fato de que a área de TI da MMP tinha disponível o back-up das gravações originais, ordenou que Dexter destruísse as matrizes infectadas pelo vírus.

Enfim, a versão "virótica" provavelmente nunca será de domínio público e é uma pena que sejamos privados de conhecer a Marisa Errática, mas aqui cabe fazer uma analogia, e o som mais próximo que poderemos reproduzir para retratar, ainda que em pequenas nuances, aquela obra do fim do mundo é o samba-caos "Redenção", do Vzyadoq Moe, banda sorocabana do final da década de 80 que misturou Jackson do Pandeiro com Clarice Lispector, passando pelo Joy Division e pelo Dadaísmo.

Os responsáveis pelo desenvolvimento do vírus que infectou o Pro Tools da MMP até agora não foram descobertos. Que não sejam jamais e consigam inocular o mais rápido possível a Zélia Duncan e a Ana Carolina!

sábado, outubro 22, 2005

Os Emuladores dos Anos 80

É inegável que boa parte da safra de bandas dos últimos dois anos é a melhor desde o movimento grunge deflagrado no início da década de 90. Independente do fato de que praticamente nenhuma das bandas traz muita novidade ao cenário musical, pelo menos entre si as bandas têm personalidade, assim como as bandas da década de 80 possuíam. O inusitado desta nova safra é que parece que cada uma das bandas parece ter escolhido uma outra banda para emular - o termo começou a ser utilizado mais freqüentemente a partir da década de 90, para designar programas em PC que simulavam jogos de Atari, Nintendo e outros videogames da década de 80. Claro, sou suspeito para exaltar as virtudes da safra, ainda que roubadas, já que os anos 80 são uma das minhas "cachaças" preferidas.

Portanto, o Kaiser Chiefs é um Clash revisitado, o Interpol é o novo Joy Division, o Killers lembra um Fine Young Cannibals com menos soul e mais guitarra, no Bloc Party ouvimos ecos de Cure, o Hot Hot Heat bebe da fonte dos New Romantic - movimento do início da década de 80 que tinha como expoente máximo o Duran Duran - e o Franz Ferdinand, ligeiramente mais esquizofênico que os demais, mistura o groove do Blondie, o minimalismo do Devo e a raiva contida do Pixies, destacando-se como a melhor banda da safra, ou a cereja do bolo, como queiram...

Tudo bem, alguns irão dizer que é tudo cópia, outros que é inspiração com um pouquinho de transpiração, mas a verdade é que em vez de somente ter destilado bons ingredientes, a geração bem que podia ter usado um liquidificador, para tentar criar um sabor que, além de inegavelmente fresco, fosse também diferente.